Comentário sobre a MMA

Post publicado hoje (01/04) na Mobilepedia.

Comentário sobre a MMA

Quem acompanha o mercado provavelmente ficou sabendo que na semana passada houve o evento de lançamento da MMA LATAM no Brasil. A Mobilepedia fez um breve post a respeito. Para quem não acompanha, a MMA é a associação de marketing móvel em nível internacional. MMA LATAM é seu capítulo América Latina, que terá sede em São Paulo. O propósito da associação - no estatuto - é a promoção do crescimento do mercado de mobilidade. Na prática a MMA atua por meio do estabelecimento de regras, melhores práticas, comitês de estudo, fóruns e eventos para intercâmbio de idéias.

A presença da MMA no Brasil é um evento relevante. Reflete diretamente os esforços das empresas em construir um ecossistema viável de marketing móvel. Eu espero que seja absorvido da maneira como deve: a presença da MMA não significa mais negócios e menos obstáculos de um dia para o outro.

O crescimento econômico somente é viável em um ambiente de regras claras - e aplicadas de modo equânime; de intercâmbio transparente de informações e do acesso livre a estas; e onde haja garantia de regularidade na oferta dos produtos e serviços. O que é verdade no ambiente macro vale para o ambiente micro. Somente veremos crescimento consistente do mobile marketing no momento em que encontrarmos todos estes fatores atuando em conjunto. No momento, o esforço é descoordenado, o que gera incerteza prejudicial ao empreendedorismo e insegurança na ponta da demanda.

O conjunto de práticas da MMA, portanto, atua no sentido de tornar possível um ambiente onde o mercado se desenvolve de modo consistente - ultrapassando a situação de ser resultado de sucessos empresariais pontuais.

A minha preocupação é se entendemos todos o papel da associação da mesma forma. Há uma tendência - cultural - ao messianismo. Ao herói. Esperamos sempre que apareça alguma entidade superior que resolverá nossos problemas. Os exemplos no cotidiano são muitos - da política ao futebol.

Mas não podemos resolver nossos problemas top-down. Ainda mais se consideramos que a MMA é uma instituição internacional, com sede nos EUA - alheia ainda às nossas necessidades locais. Por isto, me preocupa que, no evento, não tenha sido dada a devida atenção ao principal mecanismo da associação: os comitês de estudo. Destes comitês saem as proposições de melhores práticas, de regras, os estudos que irão orientar o mercado localmente. Há comitês que discutem, por exemplo, a inserção das mulheres no mercado de mobilidade - cujo domínio é essencialmente masculino; ou como as culturas urbanas se relacionam com o celular.

O tamanho de nosso mercado e seus desafios garantem a existência de diversos comitês - da definição de regras para campanhas de SMS às questões de inclusão digital (alguém se lembra?). Mas como foi ressaltado no evento - é necessária a participação e o comprometimento das pessoas e empresas que irão compor a MMA.

Ou assumimos o desafio de criarmos nós mesmos as condições, ou a MMA no país não será mais que mecanismo de propaganda para alguns, por algum tempo.

Um bom site móvel - versão resumida

Foi necessário o iPhone para que a web móvel começasse a ganhar o interesse do público. O interessante é que, de todo modo, gradualmente já estava sendo construída uma rede de sites com conteúdo interessante - começando pelos provedores de conteúdo. É provável que atualmente toda publicação tenha seu site móvel. O próximo passo importante deve ser dado por marcas cujo conteúdo de entretenimento tem presença forte em sua comunicação. Após isto, serviços e comércio são conteúdos com potencial. O que justifica a pergunta: como desenvolver um bom site para o celular? Preparei uma espécie de check-list que, se não garante a qualidade, ajuda bastante.

Planejamento

  • [ALERTA DE CLICHÊ] Favor não miniaturizar seu site. Site móvel não é um site para ser lido na tela do celular. É um site que faz o melhor uso possível do contexto gerado pela situação de mobilidade. É importante avaliar como sua marca/empresa pode fazer uso deste. No celular, muitas vezes, as informações de contato são as mais relevantes. Todos os sites de publicações apresentam informações sobre o tempo logo no início, por exemplo.
  • Perfis de uso: para auxiliar no planejamento a construção de perfis de uso pode ser muito útil. Eu utilizo quatro, que englobam a maior parte dos usuários de celular: o curioso; o apressado; o entediado; o repetitivo.

Desenvolvimento

  • Use o padrão: XHTML-MP. As referências estão aqui: dev.mobi. Isto deveria ser óbvio, mas quase todos os sites móveis no Brasil não utilizam corretamente o padrão.
  • Utilize uma estratégia de identificação de dispositivos.
  • Preste atenção às restrições: ao utilizar uma folha de estilo externa alguns browsers irão criar problemas (podem não carregar o background, podem forçar o uso da fonte de sistema)
  • Por isso mesmo, não use as recomendações baseadas no padrão de desenvolvimento de modo automático
  • Imagens: use atributos de tamanho, o site irá carregar mais rapidamente.
  • Métricas: já existem algumas ferramentas interessantes no mercado: Amethon, Bango, Mobilytics.

Design

  • O celular pode, sim, ter espaço para um design interessante. A combinação de imagens e textos contribui para uma navegação mais agradável.
  • Confie no uso de ícones. Certifique-se de que o significado é evidente.

Usabilidade

  • Evite muitos cliques para chegar ao resultado final.
  • Mas não crie um site horizontal. Observe a relação entre conteúdos e crie um clickstream que permita a navegação em diferentes níveis. Um exemplo simples aplicado a publicações é, em vez de apresentar “próxima notícia”, apresentar todas as notícias relacionadas como links abaixo do conteúdo.
  • Busca: se tem muito conteúdo e sua atividade justifica, vale inserir uma caixa de busca em seu site. O Google tem um programa para parceiros - aqui.
  • Imagens: use o atributo ALT. Há usuários que configuram seu browser para não carregar imagens. O uso do ALT o auxilia a definir se carrega ou não a imagem.
  • Imagens: crie a opção em seu próprio site para o usuário “desligar” o carregamento de imagens.
  • Favoritos: este, todo provedor de conteúdo deveria ter. Crie uma área - na página principal - onde o usuário poderá criar e acessar seus conteúdos favoritos. Isto pode ser feito manualmente ou automaticamente.

Publicidade

  • Se em seu site terá publicidade, você pode querer se certificar de que esta será eficaz. Use um banner por área visível, é uma boa prática. Isto significa que independente do tamanho de sua página, haverá sempre publicidade visível enquanto o usuário faz o scroll desta.
  • Facilite a volta: ao clicar no banner o usuário pode querer retornar a seu site. Portanto, não force a abertura em nova janela - isto não é evidente no celular, muitos usuários podem ficar perdidos.

Acesso

  • Em um mundo ideal o seu site na internet comunicaria a sua presença mobile. Neste você deveria informar a URL móvel e oferecer a opção para o consumidor receber o link no celular - por SMS.
  • Providencie a indexação nos mecanismos de busca: Google e Yahoo!.
  • Faça publicidade em outros sites móveis.

Muitas dicas presumem um conhecimento prévio (por exemplo, estratégias de identificação). Como eu disse, esta é uma versão resumida. Em breve apresentaremos uma versão mais detalhada. Enquanto isso, sinta-se à vontade para usar os comentários se precisar de mais esclarecimentos.

Bluetooth marketing - uma visão geral

Das ações de mobile marketing que vemos acontecendo no Brasil, uma grande parte destas tem o bluetooth como componente. Seja exclusivamente ou como parte de uma campanha maior, acabou por merecer até mesmo sua categoria: bluetooth marketing.

Em junho de 2005, trouxemos o primeiro aparelho do tipo para o país. Era um dispositivo da Hypertag. E a entrega de conteúdo era apenas por infravermelho.  Na época, a Motorola e a Ericsson eram as únicas empresas que davam suporte ao bluetooth. A Nokia e a Siemens usavam o infravermelho como ferramenta de comunicação entre dispositivos. Os números de aparelhos no mercado justificavam a opção.

Em maio de 2006 a Hypertag lançou seu primeiro aparelho com bluetooth. Outras empresas - BluecellKameleonQwikker - já estavam no mercado, e apenas a Bluecell com um modelo de uso semelhante, que é por sinal o que praticamente todas empresas usam hoje. As outras empresas apostavam na entrega de um aplicativo para que se iniciasse a interação.

Em junho de 2006 estimávamos uma base de usuários de 10% - com muito otimismo. Em outubro de 2006 houve as três primeiras ações comerciais: a campanha do Bradesco no Aeroporto de Guarulhos, realizada pela Tellvox; a Toyota no Salão do Automóvel (Movile); e a VW também no Salão do Automóvel (Almap).

Os números, desde então, aumentaram muito. De empresas, de campanhas, de downloads, de base de aparelhos e usuários. No primeiro semestre de 2007 eu poderia informar todas as empresas no mercado e seus diferenciais - hoje em dia, impossível. Clique aqui e cuidado para não se perder. O interessante é que os problemas permaneceram. E não são exclusivos do Brasil, encontramos no exterior os mesmos problemas - enfraquecendo as explicações baseadas no relativo atraso do mercado nacional. Implícito nesta visão está o entendimento de que, com a evolução do mercado, os problemas desaparecerão.

No entanto, acredito que não apenas os problemas não irão desaparecer, como na verdade aumentarão. Há um desafio - que muitos parecem esquecer - que encerra problema latente: a evolução tecnológica.  Uma empresa que se apresenta como bluetooth marketing comete erro estratégico. O bluetooth deve ser entendido como a tecnologia mais comum no desenvolvimento de ações de marketing de proximidade:distribuição wireless de conteúdo publicitário ou promocional, associada a determinado local. Dentro deste conceito, o bluetooth passa a ser uma tecnologia que capacita esta distribuição - a mais popular e comum, mas não imune à competição. NFC e Wifi sendo as principais concorrentes. É importante notar que há convergência: a versão 2.1 do bluetooth vai permitir a integração com NFC; no primeiro semestre de 2009 será lançado um chip com bluetooth e Wifi integrados em um módulo único. Em algum momento todos aparelhos possuirão Wifi. E ao mesmo tempo, os principais locais de interação - shoppings, aeroportos, cafés, grandes eventos - com certeza possuirão seus hotspots. Mas enquanto isto não acontece, vale observarmos os problemas existentes hoje, baseado em uma reportagem da New Media Age, publicação britânica sobre mídia digital.

O tema central da reportagem é: por que o bluetooth marketing ainda não aconteceu? E continua: “por muito tempo o bluetooth marketing esteve quase a ponto de se tornar uma mídia mainstream. E no entanto, as campanhas e redes existentes são, quando muito, irregulares.” Para entender, foram consultados executivos das principais empresas de mídia outdoor (KineticClear ChannelJC Decaux) e que, pelo menos no Reino Unido, representam os principais players no setor de marketing de proximidade. Diversas razões foram listadas: 

  • Necessidade de ativação do bluetooth pelo usuário (gerando passos que criam ruidos na comunicação);
  • Acusações de ser uma prática muito próxima ao spam;
  • Baixa escalabilidade - problemas reais ao lidar com altos volumes de interação;
  • Sensibilidade alta ao ambiente, que pode prejudicar a performance;
  • A administração de campanhas em larga escala é complicada;
  • Conteúdo de baixa qualidade ou relevância (o ônus aqui coube às agências de publicidade)

É sintomática a declaração do diretor de marketing da JC Decaux Airport: “os clientes não estão exatamente demandando ações com bluetooth  e estamos questionando o real potencial da tecnologia.” Mas apesar do cenário pessimista que foi traçado, as empresas do setor continuam apostando: “o uso do bluetooth permite o desenvolvimento de campanhas confiáveis, mensuráveis e eficientes, com uma experiência positiva para os usuários e retorno para os anunciantes”, é o discurso comum. Enfim, encontramos um cenário - de problemas e perspectivas - que poderia ser transportado para o mercado nacional sem se perder na tradução.

Só que este era o mercado que é supostamente o mais desenvolvido. Vamos seguir o mesmo caminho - e portanto estamos diante de mais um bom tempo pela frente até o uso do bluetooth se tornar algo realmente mainstream - ou pegamos um atalho sem perceber? Quanto mais tempo levarmos, maior a ameaça de substituição tecnológica, a resposta é relevante. 

Por fim, é interessante notar como no Reino Unido foi criada uma cadeia de valor transparente no segmento de marketing de proximidade, onde há empresas especializadas no desenvolvimento do hardware e do software e cujo cliente final são principalmente as empresas de mídia outdoor - pela sua capacidade de distribuição. As empresas de mídia outdoor, por sua vez, são a interface com as agências de publicidade. Este panorama é nada semelhante à confusão que reina no mercado brasileiro - com seus “patchworks” de antenas e PCs que contribuem muito mal para os desafios que existem.    

WAP, web, etc.

Recentemente houve uma certa confusão, provocada pela declaração da Predicta de que 49,7% dos acessos à internet no celular estavam partindo do iPhone. Eu fiquei entre os incomodados com a besteira dos números, mas não liguei muito inicialmente - acontece, a imprensa não tem lá um relacionamento muito amigável com os números, e isto havia saído na Folha Online e no G1. Ou seja, pouco recomendável. Mas, enfim. Resolvi contribuir, o texto está na Mobilepedia, reproduzo aqui por preguiça.

“Com relação à confusão que se criou com a divulgação dos dados da Predicta, acho que o problema, no fim, é semântico. Precisamos de uma primeira distinção, técnica: WEB, WAP, INTERNET. A elaboração que farei é resumida, então pode pecar em alguns pontos, mas atende a nossos propósitos.

Internet é a rede. Uma coleção de redes, na verdade, que se comunicam por meio do protocolo IP.

WEB é parte desta rede. Um “subset”, foi o que popularizou a internet pelo seu uso de uma interface gráfica amigável interpretada pelos browsers. Estes browsers interpretam documentos HTML entregues por servidores HTTP.

WAP: agora substitua, no que falei sobre a WEB: HTML por WML; HTTP por WAP, web browser por WAP browser. WAP é um padrão desenvolvido para permitir o acesso à internet por dispositivos móveis. Para que isto aconteça é necessária a existência de um gateway WAP - que é o intermediário entre a rede móvel e a internet, fazendo a necessária tradução para a transmissão das informações do WAP browser para um servidor WEB.

Agora, é o seguinte. WAP como descrito acima, não existe mais. Vamos chamar a este de WAP 1.0. Pois temos agora o WAP 2.0.E o que é isto? Algum WML mais avançado, WAP browsers com mais recursos? WAP 2.0 é uma reelaboração da linguagem, onde o desenvolvimento é realizado em XHTML-MP (Mobile Profile), que é parte do XHTML. E a comunicação é feita inteiramente por HTTP. Isto permite, portanto, que o acesso seja feito por browsers web - e todos os grandes fabricantes desenvolveram o seu (a Nokia usa o excelente Webkit, por exemplo. Cujos - surpresa! - componentes WebCore e JavascriptCore são utilizados no Safari - browser da Apple, aplicado no iPhone também).

Enfim, com o WAP 2.0 vieram os browsers web e com isto passou a ser possível acessar à WEB no celular. Só que qual é a diferença prática entre uma e outra? Apenas as restrições do meio - a mobilidade, os recursos computacionais (os browsers ainda não aceitam java, flash - não o flash lite, javascript é limitado, a memória RAM ainda precisa melhorar para segurar um browser), a tela.

O nome de WAP para sites móveis confunde mais do que ajuda a separar os mundos. Idealmente o site para o celular deveria ser planejado tendo em mente os objetivos do usuário e desenvolvido em XHTML-MP.

Sobre os dados da Predicta, o que temos são dados relativos ao acesso à WEB PC por meio de browsers web de celulares. A Predicta não tem como medir o acesso a sites desenvolvidos em WML - padrão que, de todo modo, já não deveria mais ser utilizado. O próprio WAP Forum (agora Open Mobile Alliance) desenvolveu e recomenda a utilização de XHTML-MP. Trabalhando em conjunto com a W3C estão buscando a convergência deste com o padrão XHTML-Basic, o que irá, com o tempo, permitir a existência de apenas uma WEB, acessível a partir de qualquer dispositivo. A Predicta também não registra estes acessos a sites móveis não WAP.Então, ficamos assim. Existe um mundo a ser desenvolvido com atenção e cuidado, que é a web móvel. Há ainda muito poucos sites de qualidade e desenvolvidos dentro do padrão correto, capazes de gerar uma boa experiência tanto para o usuário do N95 quanto para o V3. E com certeza não é a possibilidade de acessar aos sites na web que irá gerar esta experiência positiva. Pelo contrário. A mobilidade gera necessidades e interesses diferentes. Um site móvel não é um site em miniatura, mas um site planejado de forma a atender esta demanda do contexto móvel.

O interesse pelo acesso à internet no celular está aí. Eu sempre afirmei - quando questionado sobre o volume de acessos a sites móveis - que o problema estava na falta de motivos para tanto. Eu ainda preciso conhecer um site móvel realmente bom, local. Quem concentrar recursos pode encontrar bons resultados. O Weather Channel, nos EUA, já possui mais acessos a seu site móvel do que ao site tradicional. Há uma série de critérios que devem ser observados no planejamento - da existência de recursos de conectividade à atualização regular do conteúdo, passando pela personalização da experiência. Não é porque é pequeno que o trabalho é menor.”

De novo

De novo, um blog. Estou contribuindo em outros espaços também. Mas se antes escrevia sobre mobile marketing tão somente, agora passo a escrever sobre mais assuntos que me motivam. Mobilidade continua predominante.

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